Quando era pequena, e vivia em Portimão, os feriados tinham significado, mais do que vividos, eram vivenciados por nós. O Dia 1 de Maio, por exemplo, estava sempre associado a dia de ir ao campo piquenicar. Aliás, nós costumávamos juntar um grande grupo de família e amigos, em Sagres (eu sei não é campo, não é campo, mas é mar selvagem e tem pinhal, e cheira bem, a ervas e a flores, logo é quase campo, pelo menos para mim!) e desembrulhavam-se as mantas, abriam-se as caixas e começavam a aparecer as iguarias, especialidades das casas de cada uma das cozinheiras.
A minha mãe costumava levar
carapaus alimados e uma
torta de amêndoa coberta com ovos moles e fios de ovos!
Passávamos lá o dia, porque depois de partilhar as refeições entre histórias e gargalhadas, havia cantorias, ora fado, ora canções populares alentejanas, que isto de algarvios, alentejanos e cães de caça... já se sabe... é tudo gente da mesma raça!
Nós, miúdos, brincávamos às escondidas, jogávamos às cartas, e eles, os mais velhos, acabavam sempre por dormir a sesta, deitados nas redes de baloiço, que penduravam nos pinheiros. Era bom, era alegre, sabia a férias no meio das aulas.
E as lojas? Essas estavam fechadas, todas fechadas, até os restaurantes e cafés estavam fechados. Era difícil arranjar uma porta aberta para beber um café, ou comprar umas rolhas de Maio. Se as queríamos, tínhamos que ir de véspera, porque dia do trabalhador, não se trabalhava.
Mas agora não. Ontem vi algumas lojas de rua abertas.
Sinal de progresso, de teimosia, de esquecimento do feriado, ou porque é preciso manter a porta aberta para agarrar os clientes que teimam em não abrir a carteira?
Seja qual for o motivo, eu fiquei contente, porque só assim consegui ir pessoalmente dar um beijinho de parabéns à minha amiga Maria João, que em menos de um ano após ter sofrido na pele, já com 50 anos (desculpa Joãozinha, não sei se querias que se soubesse a tua idade...), o golpe das reduções de funcionários (eufemismo utilizado atualmente para o despedimento), agarrou uma oportunidade e aventurou-se no seu próprio negócio, na passada 2ªfeira -
a retrosaria Maria Cenoura.
Se a Mª João não tivesse decidido abrir as portas ontem de manhã, não sei quando é que eu poderia ir vê-la, ali na linha de Sintra.
E é disto que Portugal precisa, não é? Arregaçar as mangas sem medo de arriscar!
E vocês, por onde andaram ontem?